O que as diretrizes brasileiras e internacionais dizem sobre terapia hormonal?

os documentos brasileiros e internacionais convergem mais do que divergem. Todos descrevem a terapia hormonal como o recurso com maior eficácia demonstrada.

Resposta rápida: os documentos brasileiros e internacionais convergem mais do que divergem. Todos descrevem a terapia hormonal como o recurso com maior eficácia demonstrada para sintomas vasomotores moderados a intensos e para a síndrome geniturinária da menopausa, todos afirmam que o balanço entre benefício e risco depende de idade, de tempo desde a última menstruação e do perfil individual de risco, e todos rejeitam o uso com finalidade de prevenção primária de doença cardiovascular ou de demência. Nenhum estabelece prazo máximo fixo de uso. E todos colocam a decisão compartilhada entre pessoa e médico no centro do processo.

Quem publica diretriz sobre terapia hormonal?

Quatro tipos de fonte dominam o campo. Sociedades nacionais de menopausa, como a norte-americana, publicam posicionamentos periódicos com revisão sistemática da evidência. Entidades internacionais, como a Sociedade Internacional de Menopausa e a Sociedade Europeia de Menopausa e Andropausa, publicam recomendações e trajetórias de cuidado. Existem ainda consensos globais assinados conjuntamente por várias sociedades. E há revisões sistemáticas independentes, como as da Colaboração Cochrane, que não fazem recomendação e apenas descrevem o que os ensaios encontraram.

No Brasil, os documentos de referência vêm da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, da Associação Brasileira de Climatério e da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, além de revisões publicadas em periódicos nacionais indexados. Esses textos incorporam a evidência internacional e discutem o que muda na realidade de acesso e de rastreamento do país.

Ler diretriz exige atenção a duas coisas: a data e o nível de evidência atribuído a cada afirmação. Um documento de 2016 e um de 2025 podem soar diferentes sem que nenhum esteja errado, porque a base de evidência mudou no intervalo. E, dentro do mesmo documento, algumas frases se apoiam em ensaios randomizados e outras em opinião de painel.

Em que pontos os documentos concordam?

O primeiro ponto de acordo é a indicação principal. Sintomas vasomotores moderados a intensos, ou seja, ondas de calor e suores noturnos que atrapalham a vida, são o alvo com melhor sustentação. A síndrome geniturinária da menopausa, com ressecamento, dor na relação e sintomas urinários, aparece como segunda indicação claramente estabelecida, com discussão separada sobre formulações locais.

O segundo é a prevenção de perda óssea em mulheres com risco aumentado de fratura, tema em que os documentos reconhecem eficácia demonstrada, sem transformar isso em indicação isolada quando não há sintoma. O terceiro é a menopausa precoce ou insuficiência ovariana prematura, situação em que os textos são mais enfáticos e recomendam considerar o tratamento até a idade habitual da menopausa, com raciocínio de risco diferente do da menopausa em idade típica.

O quarto ponto comum é negativo: nenhum documento recomenda iniciar terapia hormonal com o objetivo de prevenir doença cardiovascular, demência ou envelhecimento em geral, e nenhum recomenda ajustar o tratamento perseguindo valores de exames hormonais.

Tema Posição comum nos documentos Observação
Sintomas vasomotores Indicação principal, com maior eficácia demonstrada Intensidade e impacto na vida orientam a decisão
Sintomas geniturinários Indicação estabelecida Formulações locais são discutidas separadamente da terapia sistêmica
Prevenção cardiovascular Não indicada com essa finalidade Consenso desde as reanálises do estudo norte-americano de grande porte
Prevenção de demência Não indicada com essa finalidade Evidência não sustenta benefício cognitivo preventivo
Duração do uso Sem prazo máximo arbitrário Reavaliação periódica de benefício e risco
Menopausa precoce Recomendação mais enfática Raciocínio de risco distinto do da menopausa em idade habitual

O que significa a janela de oportunidade?

A expressão descreve uma observação repetida em análises por faixa etária: o balanço entre benefício e risco parece mais favorável quando o tratamento começa em mulheres com menos de sessenta anos ou dentro de cerca de dez anos da última menstruação. Fora dessa faixa, o risco de eventos cardiovasculares e tromboembólicos pesa mais, e o benefício sintomático costuma ser menor porque muitos sintomas já reduziram.

Essa leitura nasceu da reanálise dos dados do grande ensaio norte-americano publicado em 2002, cujos resultados iniciais foram apresentados de forma agregada e provocaram queda abrupta no uso mundial. Publicações posteriores, incluindo análises de longo prazo de mortalidade, mostraram um quadro mais nuançado por idade de início.

Janela de oportunidade não é passe livre nem prazo de validade. Ela é um dos elementos do cálculo, ao lado de contraindicações, comorbidades, intensidade dos sintomas e preferência da pessoa. Começar dentro dela não elimina risco, e estar fora dela não impede automaticamente o tratamento em todas as situações.

As diretrizes indicam terapia hormonal para prevenir doença?

Para doença cardiovascular, não. Uma revisão sistemática Cochrane dedicada a esse desfecho concluiu que a terapia hormonal não é eficaz na prevenção primária ou secundária de doença cardiovascular, e os documentos de sociedade incorporaram essa conclusão. A discussão sobre possível efeito diferente em quem inicia cedo permanece como hipótese fisiopatológica, não como recomendação.

Para osso, a situação é diferente e frequentemente mal explicada. Os documentos reconhecem que a terapia hormonal reduz perda óssea e fraturas, e admitem que isso pese na decisão de mulheres sintomáticas que também têm risco aumentado de fratura. Isso não equivale a indicar o tratamento apenas para osso quando existem opções específicas e a pessoa não tem sintomas.

Para função cognitiva, os textos são consistentes em não recomendar uso preventivo. Sintomas como dificuldade de concentração e sensação de névoa mental na transição são reconhecidos, mas isso não se traduz em indicação de prevenção de demência. Sintomas neurológicos inespecíficos merecem investigação própria, tema tratado no artigo sobre tontura na menopausa.

Existe prazo máximo de uso?

A ideia de usar “pelo menor tempo possível” dominou os anos seguintes a 2002 e foi revista. Os documentos mais recentes afirmam que não há um limite arbitrário de duração e que a decisão de continuar deve ser reavaliada periodicamente, considerando persistência dos sintomas, mudanças no perfil de risco e preferência da pessoa.

Na prática, isso significa reavaliações programadas em vez de um cronômetro. Sintomas vasomotores duram, em média, vários anos, e uma parcela relevante das mulheres continua sintomática por mais tempo do que o senso comum imagina. Interromper por regra fixa, quando os sintomas continuam e não surgiu contraindicação, não é o que os textos recomendam.

Diretriz orienta, não decide

Documentos de sociedade descrevem probabilidades em populações e ajudam o raciocínio clínico. Eles não substituem exame, histórico e conversa. Nenhuma recomendação escrita aqui vale como indicação ou contraindicação para uma pessoa específica, e a leitura destas páginas não dispensa avaliação médica.

Onde os documentos divergem?

As divergências são de ênfase e de detalhe, não de direção. Há diferenças na forma de apresentar a magnitude do risco de câncer de mama, com alguns textos destacando risco absoluto por mil mulheres ao ano e outros trabalhando com risco relativo, o que muda a percepção do leitor sem mudar o dado.

Há diferença também no espaço dado a terapia com androgênios em mulheres. Um consenso global dedicado ao tema reconhece uma indicação específica, ligada a queixa sexual bem caracterizada após avaliação, e é explícito ao afirmar que não há evidência para uso com outras finalidades. Documentos gerais de menopausa tratam o assunto de forma mais breve.

Outra área de variação é o peso dado a alternativas não hormonais. Um posicionamento dedicado a esse tema classifica opções por nível de evidência e é mais detalhado do que os documentos gerais conseguem ser. Por fim, há diferenças de contexto regulatório: o que está disponível e aprovado varia entre países, e diretriz importada não descreve o cardápio brasileiro.

O que muda no contexto brasileiro?

Os documentos nacionais seguem a mesma direção dos internacionais e acrescentam camadas locais. A avaliação inicial no climatério descrita pela federação brasileira de ginecologia detalha o que investigar antes de decidir, incluindo rastreamentos que dependem de acesso. Revisões publicadas em periódicos brasileiros discutem a aplicação prática em serviços com realidades diferentes.

Existe ainda um marco regulatório próprio. Conselhos de medicina e a agência sanitária publicaram normas restringindo terapias hormonais com finalidade estética, de ganho de massa muscular ou de desempenho, e proibindo implantes hormonais manipulados. Esse é um ponto em que a leitura brasileira é mais restritiva do que o debate internacional genérico.

Do lado do acesso, disponibilidade e cobertura variam bastante entre serviço público, saúde suplementar e atendimento particular, o que afeta continuidade de tratamento e de acompanhamento. Esse recorte está no artigo sobre terapia hormonal pelo SUS.

Como a decisão compartilhada aparece nos textos?

Ela deixou de ser uma frase protocolar e virou recomendação explícita. Os documentos mais recentes descrevem o processo: apresentar benefícios esperados e riscos em números compreensíveis, checar contraindicações, discutir alternativas, incluir a preferência e os valores da pessoa e registrar a decisão, com reavaliação combinada.

Isso muda a pergunta que a mulher leva para a consulta. Em vez de “eu devo fazer”, que nenhum texto responde à distância, as perguntas úteis são: quanto meus sintomas atrapalham, quais são meus fatores de risco, quais opções existem no meu caso, o que se espera em quanto tempo e quando reavaliamos. Contexto sobre a avaliação clínica que precede essa conversa está na página do Instituto Mangata sobre tireoide e Hashimoto em Londrina, já que disfunção tireoidiana entra no diagnóstico diferencial dos sintomas do climatério.

Perguntas frequentes

As diretrizes brasileiras contradizem as internacionais?

Não em direção. Os documentos nacionais incorporam a mesma base de evidência e chegam a conclusões semelhantes sobre indicação, contraindicação e ausência de indicação preventiva. As diferenças estão em contexto de acesso, disponibilidade de produtos e regras locais de publicidade e de prescrição.

Por que o discurso mudou tanto desde 2002?

Porque os dados foram reanalisados por faixa etária e por tempo desde a menopausa, e porque estudos posteriores acrescentaram informação sobre vias e formatos. A leitura agregada inicial misturava perfis muito diferentes de participantes, o que produziu uma conclusão mais alarmante do que os dados por subgrupo sustentam.

Diretriz serve para eu decidir sozinha?

Não. Diretrizes descrevem probabilidades em grupos e explicitam que a aplicação depende de avaliação individual. Elas são úteis para entender o raciocínio e chegar à consulta com perguntas melhores, não para substituir exame e histórico.

O que os documentos dizem sobre exames de acompanhamento?

Recomendam manter rastreamentos de rotina em dia e reavaliar periodicamente sintomas, pressão arterial, peso e mudanças no perfil de risco. Monitorar níveis hormonais para ajustar o tratamento não é recomendado na menopausa em idade habitual, porque o acompanhamento é clínico.

E quem tem menopausa precoce?

Os textos tratam essa situação separadamente e são mais enfáticos, considerando o tratamento até a idade habitual da menopausa em razão do tempo prolongado de privação hormonal e de suas consequências ósseas e cardiovasculares. A avaliação continua individual e médica.

Onde encontro os documentos originais?

As referências ao final desta página trazem autor, periódico, ano e identificador digital de cada documento citado, o que permite localizar o texto completo em bases como PubMed ou no site do periódico. Documentos brasileiros de sociedade costumam estar disponíveis nos portais das próprias entidades.

Dr. Mitsuo Obata
Médico, CRM 52541/PR

Revisado em agosto de 2026.

Referências

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