Resposta rápida: a escala de sonolência de Epworth é um questionário de oito itens que estima a propensão de uma pessoa a adormecer em situações cotidianas, como ler, assistir televisão ou ficar parada no trânsito. Cada item recebe de 0 a 3 pontos, e o total varia de 0 a 24. Valores acima de 10 costumam ser tratados como sonolência diurna excessiva na literatura. É um instrumento de triagem, validado em português brasileiro, que dimensiona uma queixa subjetiva. Não mede gravidade de apneia, não substitui exame de sono e não fecha diagnóstico nenhum sozinho.
Neste artigo
- O que a escala de Epworth mede exatamente?
- Quais são as oito situações avaliadas?
- Como se pontua e o que o número significa?
- Por que ela não é um teste diagnóstico?
- Pontuação alta significa apneia do sono?
- Como ela se compara a outros instrumentos?
- Como o médico costuma usar esse resultado?
- Posso responder por conta própria em casa?
- Perguntas frequentes
- Referências
O que a escala de Epworth mede exatamente?
A escala foi descrita por Murray Johns em 1991, no hospital Epworth, em Melbourne, e por isso leva esse nome. A proposta era resolver um problema prático: sonolência diurna é uma queixa comum, cada pessoa a descreve de um jeito, e não havia uma forma rápida de comparar pacientes entre si.
O que o questionário estima é a propensão média a adormecer em situações do cotidiano recente, e não como a pessoa se sente em um momento específico. Essa é a diferença central em relação a escalas que perguntam sobre sonolência agora, que oscilam bastante ao longo do dia. A Epworth tenta capturar um traço mais estável.
Existe uma versão em português brasileiro validada para uso no Brasil, publicada em periódico nacional de pneumologia, o que importa porque tradução literal de questionário não garante equivalência cultural. Sem validação, a pontuação obtida não é comparável à da literatura internacional.
Quais são as oito situações avaliadas?
O questionário pergunta qual a chance de cochilar ou adormecer, e não apenas de se sentir cansado, em oito circunstâncias: sentado lendo; assistindo televisão; sentado quieto em um lugar público, como um teatro ou uma reunião; como passageiro em um carro por uma hora seguida, sem parada; deitado para descansar à tarde, quando as circunstâncias permitem; sentado conversando com alguém; sentado quieto após um almoço sem álcool; e no carro, parado por alguns minutos no trânsito.
A lista tem uma lógica: as situações estão ordenadas de forma aproximada da mais passiva para a mais ativa. Cochilar lendo é comum e diz pouco. Cochilar conversando ou parado no trânsito indica pressão de sono bem maior, porque o ambiente exige participação.
Quem não vivenciou alguma dessas situações recentemente deve responder considerando como provavelmente reagiria. Deixar itens em branco compromete o total e é um erro frequente no preenchimento.
Como se pontua e o que o número significa?
Cada item recebe uma nota de 0 a 3: 0 para nenhuma chance de cochilar, 1 para chance pequena, 2 para chance moderada e 3 para chance alta. Somando os oito itens, o total vai de 0 a 24 pontos.
Na literatura, o ponto de corte mais empregado situa acima de 10 a faixa considerada compatível com sonolência diurna excessiva. Alguns estudos usam faixas intermediárias para descrever intensidade, com valores mais altos indicando sonolência mais expressiva. Esses cortes são convenções de pesquisa, e não fronteiras entre saúde e doença.
| Faixa de pontuação | Interpretação usual na literatura | O que não se pode concluir |
|---|---|---|
| 0 a 10 | Dentro do esperado para a maioria dos adultos | Não exclui distúrbio respiratório do sono |
| 11 a 14 | Sonolência diurna excessiva de intensidade leve | Não indica a causa nem a gravidade de qualquer condição |
| 15 a 18 | Sonolência diurna excessiva moderada | Não define necessidade de tratamento por si só |
| 19 a 24 | Sonolência diurna excessiva acentuada | Não corresponde a índice de eventos respiratórios |
Por que ela não é um teste diagnóstico?
Porque mede percepção, e percepção varia. A resposta depende do quanto a pessoa presta atenção no próprio comportamento, do quanto está disposta a admitir o sintoma e das oportunidades reais que teve de cochilar nas semanas anteriores. Quem trabalha em pé o dia inteiro pontua diferente de quem passa oito horas sentado, com o mesmo grau de sonolência.
Há também um limite conceitual. A escala quantifica um sintoma, e sintoma não é diagnóstico. Sonolência diurna aparece em sono insuficiente, distúrbios respiratórios do sono, efeito de medicamentos, desalinhamento circadiano, depressão, hipersonias de origem central e várias condições clínicas. O número não distingue entre essas possibilidades.
O próprio autor da escala discutiu, em trabalho posterior, as limitações de correlação entre medidas subjetivas e objetivas de sonolência, mostrando que instrumentos diferentes não medem exatamente a mesma coisa. Isso não desqualifica a Epworth. Apenas define o que ela serve para responder.
Pontuação alta significa apneia do sono?
Não. Estudos que compararam a pontuação da escala com resultados de polissonografia encontraram correlação fraca a moderada com o índice de apneia e hipopneia. Existem pessoas com muitos eventos respiratórios por hora e pontuação baixa, e pessoas com pontuação alta e exame de sono sem alterações respiratórias relevantes.
Essa dissociação tem explicação. A repercussão diurna dos eventos respiratórios depende de fatores individuais, incluindo idade, tempo de doença, presença de outras condições e sensibilidade própria à fragmentação do sono. Duas pessoas com o mesmo índice podem ter experiências diurnas bem diferentes.
A conclusão prática é que uma pontuação baixa não descarta a necessidade de investigar, principalmente diante de ronco alto, pausas observadas ou hipertensão de difícil controle. Quem quer entender o que o registro noturno mede pode começar pelo texto sobre o teste do sono e o que ele avalia.
Um número não é um veredito
Pontuar 14 não significa ter apneia. Pontuar 6 não significa que o sono está bem. A escala organiza uma conversa clínica e ajuda a acompanhar a evolução de um sintoma ao longo do tempo. Quem tem sintomas relevantes deve procurar avaliação médica independentemente do resultado do questionário.
Como ela se compara a outros instrumentos?
Vale separar três categorias. A Epworth mede sonolência. Questionários como STOP-Bang e Berlim estimam risco de apneia obstrutiva, e não sonolência, incluindo itens como ronco, pausas observadas, pressão arterial, índice de massa corporal, idade, sexo e circunferência do pescoço. Já a polissonografia e os testes de latência do sono são medidas objetivas realizadas com registro fisiológico.
| Instrumento | O que avalia | Tipo | Uso típico |
|---|---|---|---|
| Escala de Epworth | Propensão a adormecer em oito situações | Questionário subjetivo | Dimensionar sonolência e acompanhar evolução |
| STOP-Bang | Risco de apneia obstrutiva | Questionário de triagem | Selecionar quem deve ser investigado |
| Questionário de Berlim | Risco de apneia obstrutiva | Questionário de triagem | Rastreamento em atenção primária |
| Polissonografia | Eventos respiratórios, oxigenação, fases do sono | Exame objetivo | Caracterizar o distúrbio do sono |
| Teste de latência múltipla | Tempo até adormecer em condições controladas | Exame objetivo | Investigação de hipersonias de origem central |
Como o médico costuma usar esse resultado?
Como uma peça entre várias. O resultado entra ao lado da história clínica, do relato de quem dorme ao lado, do exame físico, das condições associadas e dos medicamentos em uso. Um valor alto em alguém com ronco intenso e pausas observadas reforça a indicação de investigar. O mesmo valor em alguém que dorme cinco horas por noite aponta primeiro para restrição de sono.
Há um segundo uso, menos comentado e bastante útil: acompanhamento. Aplicar a escala antes e depois de uma intervenção permite comparar a percepção do próprio sintoma ao longo do tempo, com um número que significa a mesma coisa nas duas medidas.
Também é comum que a escala apareça em registros e relatórios clínicos junto de códigos de classificação de doenças, o que gera confusão entre pontuação e diagnóstico formal. São coisas diferentes, e explicamos essa distinção no material sobre o CID da apneia do sono.
Posso responder por conta própria em casa?
Pode, e não há risco em fazê-lo, desde que o resultado seja tratado pelo que ele é. Responder com honestidade sobre as oito situações, somar os pontos e levar o número à consulta é uma forma de chegar com a queixa organizada em vez de descrevê-la de forma vaga.
O que não faz sentido é usar o resultado para decidir se procura ou não avaliação. Sintomas relevantes justificam consulta com pontuação alta ou baixa. Sonolência também não é a mesma coisa que cansaço: quem se sente exausto ao acordar mas não cochila durante o dia costuma pontuar baixo, e mesmo assim tem uma queixa legítima, discutida no texto sobre acordar cansado mesmo dormindo oito horas.
Perguntas frequentes
Qual pontuação é considerada normal?
A convenção mais usada na literatura considera valores até 10 dentro do esperado para adultos, com sonolência diurna excessiva acima desse ponto. É um corte de pesquisa, adotado por praticidade, e não uma fronteira biológica.
A escala serve para crianças?
A versão original foi desenvolvida e validada em adultos. Existem adaptações propostas para populações pediátricas, com situações do dia a dia diferentes e respondidas com participação dos responsáveis. Avaliação de sono em crianças deve ser conduzida por profissional habilitado.
Posso responder pensando só na última semana?
O instrumento se refere ao período recente da vida da pessoa, e não a um único dia ruim. Uma semana atípica, com viagem, doença ou plantões, tende a distorcer o resultado. O ideal é responder considerando a rotina habitual.
Pontuei alto. Preciso fazer exame de sono?
A indicação de exame não depende do questionário isoladamente. Ela é definida pela avaliação médica, considerando sintomas, exame físico, condições associadas e risco. O número ajuda a compor a decisão, mas não a toma.
O resultado muda com o tratamento?
Costuma mudar quando a causa da sonolência é abordada, e é justamente por isso que a escala é aplicada em reavaliações. A comparação entre a pontuação inicial e a posterior fornece uma medida da percepção do próprio sintoma ao longo do acompanhamento.
Existe alguma versão oficial em português?
Sim. Uma versão em português brasileiro foi traduzida, adaptada e validada em estudo publicado no Jornal Brasileiro de Pneumologia, o que permite comparar resultados obtidos no Brasil com os da literatura internacional.
Dr. Mitsuo Obata
Médico, CRM 52541/PR
Revisado em agosto de 2026
Referências
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