O que acompanhar durante as 16 semanas de preparacao de maratona

em um ciclo de 16 semanas, o que muda o resultado não é a planilha em si, é o que você mede enquanto ela roda. Quatro conjuntos de dados dão conta da maior.

Resposta rápida: em um ciclo de 16 semanas, o que muda o resultado não é a planilha em si, é o que você mede enquanto ela roda. Quatro conjuntos de dados dão conta da maior parte das decisões: composição corporal a cada quatro semanas, variação de peso antes e depois do treino longo, sono e frequência cardíaca de repouso, e desempenho em um treino de referência repetido. Quando a massa magra começa a cair, o problema quase sempre é aporte energético, não falta de disciplina. A montagem do treino cabe ao profissional de Educação Física; o monitoramento é o que este texto trata.

Por que medir durante o ciclo em vez de só no fim?

Um ciclo de maratona soma carga por quatro meses. Os problemas que estragam esse período raramente começam de forma dramática: começam como uma queda discreta de aporte energético, uma noite mal dormida virando três, um longo que passou a custar mais caro. Quando o corredor percebe, já está há semanas em déficit acumulado.

Medir em intervalos regulares transforma esse processo lento em algo visível. Não se trata de gerar planilha bonita: trata-se de ter dois ou três indicadores confiáveis capazes de disparar uma correção antes que ela precise ser grande. Correção pequena feita na semana 6 custa muito menos do que reorganização de emergência na semana 13.

Há um ganho adicional que aparece na prática clínica. Quem mede tende a decidir melhor sob pressão, porque tem histórico para comparar. Sem histórico, a decisão fica refém da sensação do dia, que é influenciada por sono, cafeína, trabalho e humor.

Com que frequência avaliar a composição corporal?

A cada quatro semanas é o intervalo que costuma equilibrar sinal e ruído. Prazos mais curtos captam variação de hidratação e de conteúdo intestinal, não mudança de tecido. Prazos mais longos deixam o problema crescer demais antes de aparecer.

O que interessa é a série, não a foto. Quatro medições ao longo do ciclo mostram direção: massa magra estável ou subindo levemente, com gordura caindo devagar, é o cenário desejado. Massa magra em queda sustentada, mesmo com peso total estável, é sinal de alerta que precede queda de desempenho.

Padronizar a condição é o que separa dado útil de dado inútil. Mesmo horário, mesmo estado de hidratação, mesmo intervalo desde a última refeição e desde o último treino, sempre no mesmo equipamento. A leitura segmentada de uma avaliação por bioimpedância permite acompanhar separadamente pernas e tronco, o que é mais informativo do que um único número global.

O que o peso antes e depois do longo revela?

A diferença de peso corporal entre o início e o fim de um treino longo é a estimativa prática mais acessível de perda de líquido. Pesar-se sem roupa, esvaziando a bexiga antes e depois, e descontar o que foi ingerido durante o esforço dá uma noção razoável da taxa de suor individual.

Perdas na faixa de 2% do peso corporal ou mais estão associadas a queda de desempenho em esforço prolongado, especialmente em calor. Do outro lado, terminar mais pesado do que começou indica ingestão de líquido acima da perda, situação ligada a risco de hiponatremia em provas longas e que merece ajuste imediato.

Repetir essa medida em três ou quatro longos ao longo do ciclo, em condições diferentes de clima, dá ao corredor uma noção própria de quanto ele perde por hora. Esse dado individual vale mais do que qualquer recomendação genérica de mililitros por hora, porque a variação entre pessoas é enorme.

Peso na balança não é a métrica do ciclo

Durante a preparação, o peso total oscila com glicogênio, água, sal da alimentação e horário da medição. Um corredor pode estar 800 gramas mais pesado depois de uma refeição rica em carboidrato e não ter ganhado nenhuma grama de gordura. Use o peso como dado bruto de tendência mensal e deixe as decisões finas para a composição corporal e para o desempenho.

Sono e frequência cardíaca de repouso valem como dado?

Valem, desde que lidos como tendência. Sono curto e fragmentado por semanas reduz tolerância à carga, piora recuperação e aumenta percepção de esforço no mesmo ritmo. Anotar apenas duração e uma nota subjetiva de qualidade já é suficiente para identificar padrões.

A frequência cardíaca de repouso, medida ao acordar e sempre nas mesmas condições, sobe em resposta a fadiga acumulada, infecção incipiente, calor, álcool e estresse. Um dia alterado não significa nada. Três a cinco dias consecutivos acima da faixa habitual, junto com sono ruim e treino que parece mais difícil, formam um conjunto que pede redução de carga e conversa com quem prescreve o treino.

Esses sinais se sobrepõem parcialmente ao quadro descrito em como identificar overtraining. A diferença é de estágio: aqui falamos de detectar o desvio cedo, quando bastam ajustes; lá, do quadro já instalado, que costuma exigir semanas de recuo.

Indicador Frequência de medição Sinal que pede ajuste
Composição corporal segmentada A cada 4 semanas, mesma condição Massa magra em queda por duas avaliações seguidas
Peso antes e depois do longo Em 3 ou 4 treinos longos do ciclo Perda acima de 2% do peso ou ganho de peso ao final
Peso corporal em jejum 2 a 3 vezes por semana, média semanal Queda contínua sem intenção de perder peso
Frequência cardíaca de repouso Diária, ao acordar Elevação sustentada por 3 a 5 dias
Sono Diário, duração e qualidade Média semanal caindo por duas semanas
Treino de referência repetido A cada 4 semanas, mesmo percurso e horário Mesmo ritmo custando mais esforço e mais batimentos

Como fica o calendário de medições nas 16 semanas?

Uma forma simples de organizar é ancorar as avaliações no início de cada bloco de quatro semanas. A primeira, antes da semana 1, define a linha de base. As seguintes, nas semanas 5, 9 e 13, permitem comparar cada bloco com o anterior e chegar ao afunilamento com histórico completo.

Entre elas ficam os dados diários e semanais, que custam pouco: peso em jejum algumas vezes por semana, frequência cardíaca ao acordar, anotação de sono e uma nota de esforço percebido ao final de cada sessão. O conjunto leva menos de dois minutos por dia e responde a maior parte das perguntas que surgem no meio do ciclo.

Exames laboratoriais entram por indicação médica, não por rotina automática. Faz sentido investigar quando há fadiga desproporcional, queda de desempenho sem explicação, alterações menstruais, infecções de repetição ou histórico prévio relevante. Quem define quais exames e quando é o médico que acompanha o corredor.

O que fazer quando a massa magra começa a cair?

O primeiro passo é confirmar que a queda é real: repetir a medição na mesma condição, checar se houve mudança de hidratação, de horário ou de aparelho. Ruído de medição explica boa parte dos sustos.

Confirmada a tendência, a hipótese mais provável em ciclo de maratona é baixa disponibilidade energética. O volume subiu, a ingestão não acompanhou, e o corpo passa a economizar. Os sinais que costumam vir junto são fome desregulada, frio persistente, sono pior, libido reduzida, mais infecções respiratórias e, em mulheres, alteração do ciclo menstrual. Nenhum desses itens fecha diagnóstico sozinho, e a avaliação precisa ser feita por profissional habilitado.

A correção passa por aumentar o aporte energético total, com atenção especial ao carboidrato em torno das sessões longas e à distribuição de proteína ao longo do dia, e por revisar se o volume de treino está compatível com a fase. Esse ajuste é individual e depende de dados; é justamente o tipo de decisão que um acompanhamento de performance e composição corporal existe para sustentar. Cortar peso de forma agressiva no meio do ciclo, prática comum em outros esportes, costuma sair caro na maratona, como discutimos ao tratar dos riscos do corte de peso.

O que muda nas duas últimas semanas?

No afunilamento, os indicadores mudam de função. Composição corporal deixa de ser útil para decisão, porque a variação de glicogênio e água nesse período distorce a leitura. Peso tende a subir um pouco com a reposição de glicogênio, e isso é esperado, não é ganho de gordura.

O que continua valendo é o conjunto sono, frequência cardíaca de repouso e sensação nos treinos curtos. Corredor bem afunilado costuma relatar pernas leves e frequência cardíaca de repouso voltando à faixa habitual. Se esses sinais não melhoram na última semana, a fadiga era maior do que parecia.

Nenhum número desses prevê o tempo de prova. Clima, percurso, estratégia de ritmo e imprevistos pesam muito. O monitoramento serve para chegar inteiro à largada, e chegar inteiro é a variável que mais separa quem termina bem de quem termina se arrastando.

Quais erros de monitoramento mais confundem?

O mais comum é medir demais e decidir por qualquer oscilação. Pesar todos os dias e reagir à variação diária transforma ruído em ansiedade. A média semanal responde a mesma pergunta com muito menos barulho.

Outro erro é trocar de método no meio do caminho: uma avaliação em um aparelho, a seguinte em outro, comparadas como se fossem a mesma régua. Também atrapalha medir em condições diferentes, como fazer a primeira avaliação em jejum e a segunda depois do almoço. E o mais silencioso de todos é registrar tudo e nunca olhar o histórico, o que devolve a decisão para a sensação do dia.

Perguntas frequentes

Posso avaliar a composição corporal toda semana?

Pode, mas ganha pouco. A variação semanal costuma refletir hidratação e alimentação recente, não mudança de tecido. O intervalo de quatro semanas dá tempo para que a diferença medida seja maior que o erro do método.

Perder peso durante a preparação é ruim?

Depende da origem e da velocidade. Perda lenta de gordura, com massa magra preservada e desempenho estável, é compatível com um ciclo bem conduzido. Perda rápida, com massa magra caindo e treinos piorando, indica que o aporte não está acompanhando a carga.

Qual é o melhor momento para pesar durante o ciclo?

Ao acordar, após urinar, antes de comer ou beber, sempre nas mesmas condições. Use a média dos dias da semana em vez do valor de um dia isolado, porque a oscilação diária de dois quilos é comum e não significa nada.

Frequência cardíaca de repouso alta significa overtraining?

Não isoladamente. Ela sobe com noite ruim, álcool, calor, infecção começando e estresse. O que merece atenção é a elevação sustentada por vários dias junto com sono pior, desempenho em queda e desânimo para treinar.

Preciso fazer exames de sangue no meio da preparação?

Não como rotina automática. Exames entram quando há queixa, queda de desempenho sem explicação, alterações menstruais, infecções de repetição ou histórico que justifique. A indicação e a interpretação são do médico que acompanha o caso.

Vale medir tudo isso se eu corro só por diversão?

Uma versão enxuta basta: peso semanal, sono e sensação nos treinos. O conjunto completo faz mais sentido para quem tem meta de tempo, volume alto ou histórico de lesão e fadiga em ciclos anteriores.

Dra. Milena Alvares

Nutricionista, nutrição esportiva e comportamento alimentar

Revisado em agosto de 2026

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