Adesivo, gel ou comprimido: qual a diferença entre as vias da terapia hormonal?

comprimido, adesivo e gel entregam hormônio ao corpo por caminhos diferentes, e essa diferença não é detalhe de conveniência. O que é engolido passa pelo.

Resposta rápida: comprimido, adesivo e gel entregam hormônio ao corpo por caminhos diferentes, e essa diferença não é detalhe de conveniência. O que é engolido passa pelo fígado antes de circular pelo organismo, o que altera a produção de proteínas hepáticas ligadas à coagulação e ao transporte de hormônios. O que atravessa a pele entra direto na circulação e escapa dessa etapa. Estudos observacionais de grande porte associam a via oral a um risco tromboembólico maior do que a via transdérmica, enquanto a eficácia sobre as ondas de calor é comparável entre elas. A escolha da via é ato médico, depende do perfil individual de risco e não deve ser feita por conta própria.

Que formas de uso existem na terapia hormonal?

Do ponto de vista conceitual, existem dois grandes grupos. O primeiro é o das apresentações sistêmicas, cujo objetivo é fazer o hormônio circular por todo o organismo e agir sobre sintomas gerais, como ondas de calor e suores noturnos. Nesse grupo estão os comprimidos de uso oral, os adesivos aplicados na pele, os géis e os sprays cutâneos. O segundo grupo reúne as apresentações de uso vaginal, pensadas para agir principalmente no local de aplicação.

Há ainda uma camada que costuma ser esquecida na conversa. Quando a mulher tem útero, os documentos de sociedade descrevem a necessidade de associar um progestagênio ao estrogênio sistêmico, com a finalidade de proteger o endométrio. Esse componente também existe em formatos diferentes, e a combinação entre eles multiplica as possibilidades. Nada disso, porém, funciona como cardápio de escolha livre.

No Brasil, implantes hormonais manipulados foram objeto de restrição por parte dos conselhos de medicina e da agência sanitária, o que exclui do debate uma modalidade que circula muito em redes sociais. Este texto trata apenas do que está descrito na literatura de menopausa como terapia com finalidade de tratar sintomas, sem citar produto, quantidade ou esquema de uso.

O que é a primeira passagem hepática?

Toda substância engolida é absorvida pelo intestino e segue pela veia porta até o fígado antes de chegar à circulação geral. O fígado metaboliza parte dela nessa primeira passagem, e o que sobra é o que efetivamente circula. Esse é o motivo pelo qual a quantidade contida em um comprimido não corresponde à quantidade que chega aos tecidos.

O efeito relevante aqui não é a perda de substância, e sim o estímulo ao próprio fígado. A chegada de estrogênio em concentração alta ao tecido hepático modifica a síntese de várias proteínas produzidas ali: proteínas de transporte hormonal, angiotensinogênio, fatores de coagulação, proteínas anticoagulantes naturais e marcadores inflamatórios. Também altera o processamento de triglicerídeos.

Adesivos, géis e sprays atravessam a pele e caem direto na circulação sistêmica, sem essa passagem concentrada pelo fígado. Revisões descrevem duas consequências: um perfil de proteínas hepáticas menos alterado e níveis circulantes mais estáveis ao longo do dia, sem o pico que segue a absorção intestinal. É desse contraste farmacológico que nascem as diferenças de perfil de risco observadas nos estudos.

O que a literatura observa sobre trombose e via de uso?

Esse é o desfecho em que a diferença entre as vias aparece de forma mais consistente. Um estudo francês de caso e controle desenhado justamente para comparar vias encontrou associação entre uso oral e maior chance de tromboembolismo venoso, sem encontrar a mesma associação com o uso transdérmico. Achados semelhantes se repetiram em coortes e em bancos de dados de atenção primária britânicos com dezenas de milhares de casos.

Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2015 chegou à mesma direção ao agrupar os estudos disponíveis, e uma atualização de 2018 acrescentou que o tipo de progestagênio associado também parece influenciar o resultado. Uma meta-análise não transforma dado observacional em prova de causa, mas a convergência entre desenhos e populações diferentes é o que sustenta a leitura atual.

Duas ressalvas importam para não distorcer a informação. A primeira é que quase toda essa evidência é observacional, porque não existem ensaios randomizados de grande porte comparando vias diretamente para esse desfecho. A segunda é que o risco absoluto de trombose em mulheres saudáveis na faixa etária da menopausa é baixo, de modo que uma diferença relativa expressiva ainda corresponde a poucos eventos a mais por ano em um grupo grande. História pessoal ou familiar de trombose muda esse cálculo por completo e é assunto de consulta.

Aspecto Via oral Via transdérmica (adesivo, gel, spray) Uso vaginal
Caminho até a circulação Intestino, veia porta e fígado antes de circular Pele direto para a circulação sistêmica Mucosa local, absorção sistêmica reduzida
Primeira passagem hepática Presente Contornada Pouco relevante
Proteínas hepáticas e coagulação Alteração descrita na literatura Alteração menor nos estudos comparativos Sem alteração significativa descrita
Tromboembolismo venoso em estudos observacionais Associação a risco maior Associação não demonstrada nos mesmos estudos Não é o alvo desses estudos
Alvo do tratamento Sintomas sistêmicos Sintomas sistêmicos Sintomas geniturinários
Pontos práticos frequentes Uso simples, sem manejo de pele Reação cutânea, descolamento, tempo de secagem Aplicação local, rotina própria

E o risco de AVC muda conforme a via?

Um estudo britânico de caso e controle aninhado em base populacional avaliou acidente vascular cerebral e encontrou padrão parecido com o da trombose venosa: associação com o uso oral e ausência de aumento detectável com o uso transdérmico nas quantidades menores. A quantidade utilizada apareceu como variável relevante dentro da própria via oral.

Os posicionamentos de sociedades de menopausa incorporaram esse conjunto de achados de forma cautelosa. Eles reconhecem que a via transdérmica apresenta perfil de risco vascular aparentemente mais favorável, especialmente em mulheres com fatores de risco adicionais, e ao mesmo tempo evitam transformar isso em regra automática, porque a base é observacional. O que a comparação entre vias oferece é um elemento do raciocínio, não uma prescrição pronta.

A via oral tem alguma vantagem?

Tem, e ignorar isso produz uma leitura enviesada. O uso oral é o mais antigo, o mais estudado em ensaios clínicos e, no Brasil, costuma ser o mais acessível em preço e em disponibilidade, inclusive na rede pública. Para quem tem dificuldade com aplicação na pele, pele sensível ou rotina que atrapalha a adesão de adesivos e géis, a simplicidade conta.

Existe também um efeito hepático que caminha em duas direções. A passagem pelo fígado eleva a produção de proteínas de transporte e modifica o perfil lipídico, com aumento do colesterol de alta densidade e redução do de baixa densidade em muitos estudos, junto de elevação de triglicerídeos. Esse conjunto não é motivo para indicar a terapia hormonal com finalidade lipídica, tema tratado no artigo sobre o que dizem as diretrizes sobre terapia hormonal, mas explica por que a via oral não é simplesmente uma versão pior da transdérmica.

Não existe via melhor no abstrato

A comparação entre vias descreve diferenças de farmacologia e de risco observadas em populações. Ela não indica nem contraindica nada para uma pessoa específica. Terapia hormonal é ato médico, exige avaliação de histórico, exames e contraindicações, e nenhuma página da internet pode fazer essa avaliação. Este texto não recomenda via, produto, quantidade ou esquema de uso.

O que muda na praticidade e na adesão?

Adesivos são trocados em intervalos de dias, o que reduz o número de decisões diárias e ajuda quem esquece rotinas. Em compensação, podem causar irritação ou vermelhidão no ponto de aplicação e podem descolar com calor, transpiração intensa, piscina ou atividade física frequente. Rodízio do local de aplicação é orientação comum para reduzir reação de pele.

Géis e sprays exigem aplicação diária, respeito ao tempo de secagem e cuidado com contato pele a pele logo após o uso, já que existe possibilidade de transferência para outra pessoa antes da absorção completa. Banho ou exercício muito próximos da aplicação também entram na conversa prática. Comprimidos não têm nenhum desses problemas e trazem outro: dependem de lembrar todos os dias e podem sofrer interferência de quadros digestivos.

Adesão não é detalhe menor. Um tratamento que não é usado de forma regular não produz o efeito estudado, e a interrupção por incômodo prático é uma das razões frequentes de abandono, ao lado de efeitos indesejados, tema do artigo sobre efeitos colaterais da terapia hormonal.

E as formulações de uso vaginal?

Elas pertencem a outra categoria de conversa. O alvo é a síndrome geniturinária da menopausa, com ressecamento, ardência, dor na relação e sintomas urinários, e a absorção para a circulação geral é pequena. Por isso, os documentos de sociedade tratam essas apresentações separadamente das sistêmicas, com discussão própria sobre segurança.

Duas consequências práticas seguem daí. Uso vaginal com finalidade local não é a mesma coisa que terapia hormonal sistêmica e não tem por objetivo controlar ondas de calor. E quem usa apresentação sistêmica pode continuar com queixa geniturinária, porque os dois problemas respondem de formas diferentes. A avaliação médica é o que separa uma situação da outra.

Quem decide qual via será usada?

A decisão é médica e individual, construída em conversa. Entram no cálculo a intensidade dos sintomas, o tempo desde a última menstruação, a idade, a presença ou ausência de útero, contraindicações absolutas, história pessoal e familiar de trombose, pressão arterial, peso, enxaqueca com aura, doença hepática ou biliar, triglicerídeos elevados, tabagismo, preferências pessoais, custo e disponibilidade real onde a mulher mora.

Antes disso, existe uma etapa de investigação que não pode ser pulada. Vários sintomas atribuídos ao climatério coincidem com os de disfunção tireoidiana, e a avaliação inicial descrita pelas diretrizes brasileiras inclui esse diagnóstico diferencial. É o tipo de checagem que aparece na página do Instituto Mangata sobre tireoide e Hashimoto em Londrina e que costuma mudar a conduta antes que qualquer decisão sobre via de uso faça sentido.

A avaliação nutricional entra como suporte do cuidado, com foco em composição corporal, padrão alimentar, saúde óssea e cardiometabólica, sem interferir na prescrição. Quem conduz a decisão sobre terapia hormonal é o médico responsável pelo acompanhamento, com exame, histórico e reavaliação periódica.

Perguntas frequentes

Adesivo é sempre mais seguro que comprimido?

Não em termos absolutos. Os estudos observacionais mostram perfil vascular aparentemente mais favorável para a via transdérmica, sobretudo quanto a tromboembolismo venoso, e essa é uma diferença consistente. Mas segurança depende do conjunto: contraindicações, comorbidades, componente progestagênico associado e adesão ao uso. Quem pesa isso é o médico, caso a caso.

Gel e adesivo funcionam igual?

Os dois contornam a primeira passagem hepática e são tratados como via transdérmica na literatura. As diferenças estão na frequência de aplicação, na estabilidade dos níveis ao longo do dia, na tolerância da pele e na rotina de cada pessoa. Estudos que compararam desfechos vasculares costumam agrupar as duas formas.

A via muda a eficácia sobre as ondas de calor?

Quando o objetivo é controle de sintomas vasomotores, as apresentações sistêmicas mostram eficácia comparável nos estudos, desde que usadas de forma adequada. A diferença entre vias aparece principalmente no perfil de risco e nos aspectos práticos, não no alívio esperado.

Posso trocar de via por conta própria?

Não. Trocar via envolve mudança de comportamento farmacológico, de absorção e de acompanhamento, além de risco de interrupção do efeito ou de sangramento inesperado. Qualquer mudança precisa passar por reavaliação médica, com registro do motivo e do que se espera observar.

Quem tem risco de trombose pode usar terapia hormonal?

Depende do tipo e da magnitude do risco, e a resposta não cabe em um texto geral. História pessoal de tromboembolismo, trombofilia conhecida e alguns quadros específicos entram nas contraindicações discutidas pelas diretrizes. A definição do que se aplica a cada mulher exige avaliação clínica com histórico completo.

Uso vaginal conta como reposição hormonal?

É uma categoria distinta. A finalidade é local, a absorção sistêmica é reduzida e os documentos de sociedade discutem essas apresentações em seção própria. Isso não significa uso livre: continua sendo prescrição médica, com indicação, acompanhamento e reavaliação.

Dra. Milena Alvares
Nutricionista, nutrição esportiva e comportamento alimentar

Revisado em agosto de 2026.

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