Tireoidite de De Quervain: o que e a tireoidite dolorosa

A tireoidite de De Quervain, também chamada de tireoidite subaguda ou granulomatosa, é uma inflamação temporária da tireoide que costuma cursar com dor no.

Resposta rápida: A tireoidite de De Quervain, também chamada de tireoidite subaguda ou granulomatosa, é uma inflamação temporária da tireoide que costuma cursar com dor no pescoço, febre baixa e sensação de mal estar, com frequência algumas semanas depois de uma infecção de vias aéreas. A glândula inflamada libera para o sangue o hormônio que já estava armazenado, o que produz uma fase inicial de função alta, em geral seguida por uma fase de função baixa e, na maioria das pessoas, retorno ao funcionamento habitual dentro de alguns meses. É um quadro distinto da tireoidite de Hashimoto na origem, no ritmo e no desfecho.

O que é a tireoidite de De Quervain?

Tireoidite é o nome genérico para inflamação da tireoide, e existem vários tipos com causas bem diferentes entre si. A forma descrita por Fritz de Quervain no início do século passado recebe também os nomes de tireoidite subaguda, tireoidite granulomatosa e tireoidite dolorosa. O adjetivo subaguda indica o ritmo: nem a instalação abrupta de um quadro agudo, nem a lentidão silenciosa de uma doença crônica.

O elemento que define esse tipo é a combinação de dor na região anterior do pescoço com marcadores de inflamação elevados e uma alteração transitória da função da glândula. Na análise do tecido, descreve se infiltrado inflamatório com células gigantes e destruição parcial dos folículos, os compartimentos onde o hormônio fica estocado. Essa destruição é o motor de tudo o que acontece depois.

Por que a dor no pescoço é o sinal que mais chama atenção?

A tireoide é envolvida por uma cápsula pouco elástica. Quando o processo inflamatório provoca edema no interior da glândula, essa cápsula é distendida, e a distensão estimula terminações nervosas. Daí a dor local, muitas vezes descrita como intensa, com piora ao virar a cabeça, ao deglutir e à simples palpação da região.

A dor costuma irradiar para a mandíbula, para o ouvido ou para a região alta do tórax, e essa irradiação explica um caminho comum de quem procura ajuda: muita gente é avaliada primeiro por dor de garganta ou por suspeita de problema dentário. Não é raro que o quadro comece de um lado da glândula e migre para o outro ao longo de dias ou semanas, um padrão descrito na literatura como dor migratória.

Qual a relação com uma infecção viral anterior?

A hipótese mais aceita é a de um gatilho viral. Muitas pessoas relatam infecção de vias aéreas superiores nas semanas anteriores ao início da dor, e séries clínicas mostram agrupamento de casos em determinadas épocas do ano, o que sustenta esse raciocínio. Vários vírus já foram associados ao quadro em relatos e séries, sem que um agente único explique todos os casos.

Importante entender o que essa associação significa. Não se trata de infecção da tireoide pelo vírus no sentido de uma glândula tomada por microrganismos, situação que corresponde a outro diagnóstico, a tireoidite infecciosa aguda. Na tireoidite subaguda, o entendimento predominante é o de uma resposta inflamatória desencadeada após o contato com o agente, em pessoas com predisposição.

Essa predisposição tem marcador conhecido. A associação com determinados alelos do sistema HLA, em especial o HLA B35, é descrita há décadas e reaparece em estudos recentes, o que ajuda a explicar por que apenas uma minoria das pessoas que passam por infecções respiratórias comuns desenvolve o quadro.

Quais são as fases de função da tireoide nesse quadro?

A sequência clássica tem três tempos e decorre diretamente do mecanismo de destruição folicular. Na primeira fase, o hormônio previamente armazenado escapa dos folículos rompidos e cai na circulação. O resultado é tireotoxicose por extravasamento, com T4 e T3 elevados e TSH baixo, acompanhada de sintomas como palpitação, tremor, calor e perda de peso. Essa fase costuma durar de duas a oito semanas.

Como o estoque não é infinito, a glândula esvazia. Ao mesmo tempo, o tecido inflamado não consegue produzir hormônio novo em ritmo normal. Instala se então a segunda fase, de função baixa, com queda de T4 e elevação do TSH, que pode vir acompanhada de cansaço, intolerância ao frio, lentidão intestinal e humor deprimido. Ela dura semanas a poucos meses.

A terceira fase é a de recuperação. Conforme a inflamação cede, o tecido se recompõe e a produção volta ao padrão anterior na maior parte dos casos. A distinção entre tireotoxicose por extravasamento e hipertireoidismo por produção aumentada é central aqui, porque as duas situações têm exames de imagem funcional e condutas médicas bem diferentes.

Característica Tireoidite subaguda de De Quervain Tireoidite de Hashimoto Tireoidite silenciosa e pós parto
Dor cervical Presente e marcante Ausente na regra Ausente
Gatilho descrito Infecção viral prévia em boa parte dos casos Autoimunidade crônica Autoimunidade, com o pós parto como período de risco
Marcadores de inflamação VHS e proteína C reativa costumam estar altos Em geral normais Em geral normais
Anticorpos antitireoperoxidase Ausentes ou em títulos baixos Positivos na maioria Podem ser positivos
Curso da função Fase alta, fase baixa, recuperação Tendência lenta à função baixa persistente Fase alta e fase baixa, sem dor
Desfecho mais comum Retorno ao funcionamento habitual Necessidade frequente de reposição contínua Recuperação na maioria, com risco posterior

Em que ela difere da tireoidite de Hashimoto?

São duas doenças com nomes parecidos e lógicas opostas. Hashimoto é um processo autoimune crônico, silencioso, sem dor, que corrói a capacidade produtiva da glândula ao longo de anos e frequentemente termina em função baixa permanente. A tireoidite subaguda é um evento inflamatório com hora para começar e forte tendência a terminar.

Os anticorpos ajudam nessa separação. No Hashimoto, os anticorpos antitireoperoxidase costumam estar positivos em títulos expressivos, e a ultrassonografia mostra padrão heterogêneo difuso. Na tireoidite subaguda, esses anticorpos são ausentes ou transitoriamente baixos, e os marcadores de inflamação sistêmica, ao contrário, se destacam. Quem convive com tireoidite crônica autoimune encontra o panorama do acompanhamento na página sobre avaliação e acompanhamento de tireoidite de Hashimoto.

Há um detalhe que confunde: as duas podem produzir uma fase de função baixa com sintomas idênticos. A diferença está no antes e no depois, ou seja, na história de dor, no perfil laboratorial de inflamação e na trajetória ao longo dos meses. Por isso o tempo de observação faz parte do próprio raciocínio clínico.

Dor no pescoço pede avaliação, não autodiagnóstico

Dor na região anterior do pescoço tem várias causas possíveis, de origem muscular, dentária, faríngea, ganglionar ou tireoidiana. Este texto explica um quadro, não conclui nada sobre o seu caso. Dor cervical com febre, nódulo, rouquidão ou dificuldade para engolir merece avaliação médica presencial, e a definição diagnóstica depende de exame físico e de exames dirigidos.

Que exames costumam entrar na avaliação?

O ponto de partida é a história somada ao exame físico, com a palpação dolorosa da glândula como achado característico. A partir daí, a avaliação laboratorial costuma incluir TSH e T4 livre, para situar a fase funcional, e marcadores de inflamação como velocidade de hemossedimentação e proteína C reativa, tipicamente elevados nesse quadro e úteis para diferenciá lo de outras tireoidites.

Quando existe dúvida entre tireotoxicose por extravasamento e produção hormonal aumentada, a cintilografia com captação de iodo radioativo é o exame que resolve a questão, já que a captação está tipicamente muito baixa na tireoidite subaguda. A indicação de cada um desses exames é médica e depende do que a avaliação inicial mostrou.

Quanto tempo dura e o que acontece depois?

O curso completo, da dor inicial até a normalização da função, costuma ocupar de dois a seis meses. Séries clínicas de longo prazo mostram que a grande maioria das pessoas recupera função tireoidiana normal, mas uma parcela minoritária permanece com função baixa persistente e passa a precisar de acompanhamento contínuo.

A recorrência existe e é descrita como pouco frequente, com relatos de novos episódios anos depois do primeiro. O manejo dos sintomas na fase aguda envolve decisões médicas sobre controle da dor e da inflamação, e o uso de medicamentos nessa etapa segue critérios clínicos individuais, não protocolos genéricos encontrados na internet.

O que a alimentação tem a ver com esse período?

Não existe dieta que trate a tireoidite subaguda, e prometer isso seria desonesto. O que existe é um período de semanas com sintomas que mexem com o apetite, com o gasto energético e com o padrão intestinal, e nisso o suporte nutricional tem papel concreto de sustentação.

Na fase de função alta, o gasto energético de repouso sobe, o trânsito intestinal acelera e a perda de peso pode ser rápida. Manter aporte energético e proteico adequado nesse intervalo ajuda a preservar massa muscular. Na fase de função baixa, a tendência se inverte: apetite reduzido, lentidão intestinal e retenção de líquido, situação em que fibras, hidratação e regularidade das refeições fazem mais diferença do que qualquer alimento isolado.

Um ponto merece atenção específica: doses altas de iodo, vindas de suplementos concentrados ou de algas, não são inócuas para uma glândula inflamada e podem alterar a função em qualquer direção. Esse raciocínio está detalhado no texto sobre iodo na alimentação e o risco do excesso. Lógica semelhante vale para o mineral discutido no artigo sobre suplementação de selênio e tireoide, cuja indicação depende de avaliação individual.

Perguntas frequentes

Tireoidite de De Quervain é contagiosa?

Não. A infecção viral que pode preceder o quadro é transmissível como qualquer virose respiratória, mas a inflamação da tireoide em si não passa de pessoa para pessoa. Ela depende de uma resposta individual, ligada inclusive a características genéticas de quem a desenvolve.

A tireoide fica danificada para sempre?

Na maioria dos casos descritos em séries de seguimento, a função retorna ao padrão anterior depois que a inflamação cede. Uma parcela menor permanece com função baixa persistente e passa a precisar de acompanhamento continuado. Só o seguimento laboratorial ao longo dos meses responde isso para cada pessoa.

Por que meu exame deu hipertireoidismo se eu tenho uma inflamação?

Porque o hormônio elevado no sangue não está sendo fabricado a mais, está vazando do estoque. A inflamação rompe os folículos e libera o que já estava guardado. É por isso que a captação de iodo radioativo aparece baixa nesse quadro, ao contrário do que ocorre quando a glândula produz em excesso.

Preciso tomar hormônio na fase de função baixa?

Depende inteiramente do caso. Muitas pessoas atravessam essa fase sem necessidade de reposição, porque ela é transitória. A decisão considera intensidade dos sintomas, valores laboratoriais e tempo de evolução, e cabe ao médico que acompanha, com reavaliações programadas.

Existe relação com Hashimoto na mesma pessoa?

As duas condições podem coexistir, e é por isso que a dosagem de anticorpos entra na avaliação. A presença de tireoidite crônica autoimune de base muda a expectativa sobre o desfecho funcional, o que reforça a importância de acompanhar os exames depois do episódio agudo.

Dra. Paloma Sant’Ana
Nutricionista, nutrição funcional e suporte em doenças autoimunes

Revisado em agosto de 2026.

Referências

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