Quem não pode fazer reposição hormonal?

não existe uma lista universal que sirva para todas as mulheres. As diretrizes de menopausa descrevem contraindicações absolutas, situações em que a terapia.

Resposta rápida: não existe uma lista universal que sirva para todas as mulheres. As diretrizes de menopausa descrevem contraindicações absolutas, situações em que a terapia hormonal sistêmica não deve ser iniciada, e contraindicações relativas, em que ela pode ser possível com cautela, ajuste de via ou acompanhamento mais próximo. Entre as absolutas costumam aparecer sangramento genital sem causa esclarecida, doença tromboembólica ativa, doença hepática grave em atividade, câncer de mama ou de endométrio hormônio dependente e eventos cardiovasculares recentes. A decisão final é sempre médica, individual e revista ao longo do tempo.

Qual a diferença entre contraindicação absoluta e relativa?

Contraindicação absoluta é a situação em que o risco previsto do tratamento supera qualquer benefício esperado, de modo que a conduta padrão é não iniciar. Contraindicação relativa é diferente: existe risco aumentado, mas ele pode ser aceitável dependendo da gravidade dos sintomas, da idade, do tempo desde a última menstruação, da via escolhida e do que mais a pessoa tem de doença associada. Nessa segunda categoria, a resposta não é sim ou não, é sob quais condições.

Essa distinção existe porque os documentos de sociedades de menopausa trabalham com risco populacional, e a pessoa sentada na consulta não é uma população. Uma mulher de 51 anos com sintomas vasomotores intensos e nenhum outro problema de saúde está num cenário de risco muito diferente do de uma mulher de 68 anos que parou de menstruar há quinze anos e tem hipertensão mal controlada, ainda que nenhuma das duas tenha contraindicação absoluta formal.

Também vale separar terapia sistêmica de terapia vaginal de baixa absorção. Boa parte das restrições descritas nas diretrizes se aplica à terapia sistêmica. Formulações locais destinadas a sintomas geniturinários têm perfil de absorção diferente e são discutidas separadamente nos documentos, inclusive em alguns cenários oncológicos, sempre com avaliação da equipe que acompanha o caso.

Que situações a literatura descreve como contraindicação absoluta?

Os posicionamentos da Sociedade Norte-Americana de Menopausa, da Sociedade Internacional de Menopausa e o consenso global de terapia hormonal convergem em um conjunto parecido de situações. Aparecem com frequência: sangramento genital de causa não esclarecida, câncer de mama atual ou prévio, câncer de endométrio hormônio dependente, tromboembolismo venoso atual ou histórico de trombose sem causa transitória identificada, doença arterial coronariana e acidente vascular cerebral recentes, doença hepática ativa com função comprometida, porfiria cutânea tardia e hipersensibilidade conhecida ao produto.

A lista parece fechada, mas o texto que acompanha cada documento é cheio de ressalvas. Um evento trombótico ocorrido há vinte anos, ligado a uma cirurgia ortopédica e a imobilização prolongada, não pesa como um evento espontâneo recente. Um nódulo mamário investigado e classificado como benigno não é câncer de mama. É por isso que copiar a lista da internet e concluir sozinha que pode ou não pode leva a erro nos dois sentidos: mulheres que poderiam tratar ficam sem tratamento, e mulheres que não deveriam iniciar procuram alternativas menos controladas.

Categoria Exemplos citados nas diretrizes O que costuma acontecer na prática
Absoluta Sangramento genital sem causa esclarecida; câncer de mama atual ou prévio; câncer de endométrio hormônio dependente Não se inicia terapia sistêmica; investiga-se a causa ou discute-se com a equipe oncológica
Absoluta Tromboembolismo venoso ativo; infarto ou AVC recentes; doença hepática grave em atividade Adia-se ou descarta-se a terapia sistêmica; prioriza-se o tratamento da condição de base
Relativa Enxaqueca com aura; hipertensão não controlada; triglicerídeos muito elevados Reavalia-se a via de administração e o controle da condição antes de decidir
Relativa Cálculo de vesícula; miomas volumosos; endometriose prévia; trombofilia conhecida Discussão individual de risco, monitoramento mais próximo e reavaliações programadas
Situação à parte Sintomas geniturinários isolados Formulações locais de baixa absorção são avaliadas separadamente da terapia sistêmica

Por que sangramento sem causa esclarecida trava a decisão?

Sangramento genital que não tem explicação é um sintoma, não um diagnóstico. Ele pode vir de atrofia, de pólipo, de mioma, de alteração hormonal da própria transição, de uso irregular de outro medicamento ou de uma lesão do endométrio que precisa ser identificada. Iniciar terapia hormonal antes de saber a origem embaralha o quadro: passa a existir uma explicação plausível para o sangramento, e a investigação do que estava acontecendo antes fica adiada.

Por isso a conduta descrita nas diretrizes é investigar primeiro. A avaliação costuma envolver exame ginecológico, imagem e, conforme o achado, estudo do endométrio. Esclarecida a causa e tratada quando necessário, a conversa sobre terapia hormonal volta à mesa. O sangramento deixa de ser contraindicação quando deixa de ser sem causa esclarecida.

Vale a mesma lógica para quem já usa terapia hormonal e passa a sangrar fora do padrão esperado. Isso não significa suspender por conta própria: significa comunicar quem prescreveu, porque a conduta depende de há quanto tempo o tratamento começou e de qual esquema está em uso. Esse ponto aparece com mais detalhe no texto sobre efeitos colaterais da terapia hormonal.

Trombose e doença cardiovascular impedem sempre?

Histórico de trombose venosa é um dos pontos mais discutidos. O risco de tromboembolismo aumenta com terapia hormonal sistêmica, e estudos observacionais de grande porte mostraram que a magnitude desse aumento varia conforme a via de administração e conforme o componente progestagênico associado. Um estudo de caso e controle aninhado com bases de dados britânicas encontrou padrões distintos entre formulações orais e transdérmicas, resultado que hoje aparece citado em praticamente todos os documentos de sociedade.

Isso não transforma nenhuma via em isenta de risco nem autoriza a conclusão de que quem já teve trombose pode usar desde que troque a via. O que a literatura sustenta é que a via importa na avaliação de risco e que a decisão em quem tem histórico trombótico exige avaliação individual, muitas vezes com quem acompanha a coagulação. Trombofilia conhecida, história familiar forte e evento espontâneo prévio mudam completamente o cálculo.

Na parte arterial, a leitura mudou desde as primeiras publicações do Women’s Health Initiative. As reanálises por faixa etária mostraram que o perfil de risco de quem inicia perto da menopausa difere do de quem inicia muitos anos depois. Ainda assim, evento coronariano ou cerebrovascular recente permanece na coluna das contraindicações, e terapia hormonal não é indicada com finalidade de prevenção cardiovascular. A comparação de vias e formatos é o tema do artigo sobre adesivo, gel ou comprimido.

E quem já teve câncer hormônio dependente?

Câncer de mama atual ou prévio aparece como contraindicação em todos os documentos consultados para este texto. A razão é direta: parte desses tumores expressa receptores hormonais, e a exposição a hormônio exógeno é considerada indesejável nesse contexto. A mesma lógica vale para câncer de endométrio classificado como hormônio dependente.

Existe, porém, um espaço de discussão clínica que não cabe em texto de blog. Mulheres que terminaram tratamento oncológico e convivem com sintomas graves, incluindo sintomas geniturinários que comprometem a vida sexual e urinária, são avaliadas caso a caso pela equipe que as acompanha, com alternativas não hormonais em primeiro plano e, quando aplicável, com formulações locais discutidas dentro dessa equipe. Nada disso se resolve por conta própria nem por indicação de terceiros.

Uma lista não diagnostica ninguém

Reconhecer o próprio caso em um item desta página não é um diagnóstico nem uma liberação. O mesmo termo pode descrever quadros clínicos muito diferentes, e a leitura correta depende de exame, histórico completo e exames complementares. Leve a dúvida para a consulta em vez de fechar a conclusão sozinha.

O que costuma entrar como contraindicação relativa?

A lista de contraindicações relativas é mais longa e mais variável entre documentos. Enxaqueca com aura costuma aparecer, com discussão específica sobre via de administração. Hipertensão arterial não controlada geralmente exige controle antes de qualquer decisão. Hipertrigliceridemia importante, doença de vesícula, litíase biliar prévia, miomas volumosos, endometriose com histórico de dor e lúpus com anticorpos antifosfolípides são outros exemplos frequentes.

Obesidade e tabagismo entram numa zona intermediária. Nenhum dos dois é contraindicação formal na maior parte dos documentos, mas ambos elevam o risco de base de eventos que a terapia também pode influenciar. Isso significa que participam do cálculo, e não que impedem o tratamento. O mesmo raciocínio se aplica a doença hepática já compensada, a hipotireoidismo em tratamento e a diabetes com bom controle.

Uma observação útil: contraindicação relativa não é sinônimo de risco pequeno. Em alguns casos, é o oposto. É a categoria em que o julgamento clínico pesa mais, porque a evidência disponível não é forte o bastante para transformar a situação em regra fixa. Quem quiser entender por que tantos produtos vendidos como alternativa escapam desse tipo de análise pode ler o artigo sobre o que quer dizer reposição hormonal natural.

O que a consulta levanta antes de decidir?

O documento de avaliação inicial no climatério publicado pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia descreve um roteiro reconhecível: história menstrual e reprodutiva completa, tempo desde a última menstruação, caracterização dos sintomas e do quanto eles atrapalham, histórico pessoal e familiar de câncer, de trombose e de doença cardiovascular, medicamentos em uso, tabagismo, pressão arterial, peso e circunferência abdominal.

A partir daí entram exames orientados pelo caso, incluindo rastreamento mamário e ginecológico em dia, avaliação metabólica e, conforme a suspeita, investigação de tireoide, já que sintomas de disfunção tireoidiana se confundem com sintomas do climatério. Quem acompanha condições de tireoide encontra mais contexto na página do Instituto Mangata sobre tratamento de tireoide e Hashimoto em Londrina.

Decidida ou não a terapia, o acompanhamento é parte do processo. Diretrizes recomendam reavaliação periódica, com revisão de sintomas, de efeitos adversos e de mudanças no quadro de saúde que possam alterar a categoria de risco. Uma pessoa sem contraindicação hoje pode passar a ter uma no futuro, e o inverso também acontece.

Perguntas frequentes

Ter caso de câncer de mama na família impede o tratamento?

História familiar não é o mesmo que diagnóstico pessoal e não aparece como contraindicação absoluta nos documentos de sociedade. Ela entra na avaliação de risco individual, junto com idade de diagnóstico dos familiares, grau de parentesco, resultado de rastreamento e presença de mutações conhecidas quando investigadas. A conversa é sobre risco somado, não sobre proibição automática.

Quem tem Hashimoto pode fazer terapia hormonal da menopausa?

Doença autoimune de tireoide não figura como contraindicação nas listas das diretrizes de menopausa. O ponto de atenção é outro: sintomas das duas condições se sobrepõem, então convém ter o quadro tireoidiano avaliado e estável antes de atribuir tudo à menopausa ou de esperar que a terapia hormonal resolva o que é da tireoide.

Existe idade limite para começar?

Não existe um número que funcione como corte rígido, mas o tempo desde a menopausa e a idade influenciam o balanço de risco descrito na literatura. Iniciar em quem está próxima da transição tem perfil diferente de iniciar muitos anos depois. É por isso que a idade entra na conversa mesmo quando não há nenhuma contraindicação formal.

Já uso o tratamento e descobri uma nova condição de saúde. Suspendo?

A conduta é comunicar quem prescreveu antes de qualquer mudança. Algumas condições exigem interrupção imediata, outras exigem apenas ajuste ou vigilância. Interromper por conta própria pode trazer retorno abrupto dos sintomas e não substitui a reavaliação que a nova condição exige.

Miomas ou endometriose impedem?

Nas diretrizes, aparecem como situações de cautela, não como impedimento absoluto. Miomas podem responder ao estímulo hormonal e endometriose pode reativar sintomas, o que significa acompanhamento mais próximo e reavaliação do plano se algo mudar. A decisão pesa o tamanho do incômodo dos sintomas da menopausa contra esse risco.

Se eu não posso usar hormônio, sobra alguma coisa?

Sim. Existem opções não hormonais estudadas para sintomas vasomotores, além de abordagens comportamentais e de sono com evidência própria. Um posicionamento dedicado a terapias não hormonais foi publicado por sociedade de menopausa e organiza o que tem e o que não tem respaldo. A escolha continua sendo clínica e individual.

Dr. Mitsuo Obata
Médico, CRM 52541/PR

Revisado em agosto de 2026.

Referências

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